domingo, 28 de julho de 2013

...e a estagnação do espírito


Desejei encontrar o "ponto de Arquimedes" que me salvaria do tormento de ser parte da angustiante "doxa". Essa possibilidade é cativante, sedutora! É o cumprimento da divindade na humanidade. A possibilidade de acessar em vida a universalidade prometida apenas pós-mortem!
    Contudo, assim como o conjunto de adjetivos apontados acima, toda essa sedução é apenas a miragem no deserto que é a falta de sentido para a existência humana.  O que resta dessa precipitação ao oásis é a inexistente saciação da sede e uma fatal estagnação do corpo no deserto.
      Me seduziu encontrar alguma grande crença que possibilite positivamente abarcar no pensamento todos os lados do aflitivo quiliógono que é a condição humana. Contudo, o resultado dessa pretensão, foi a cristalização da minha consciência, daquilo que compõe o meu Espírito. Mais aflitivo do que não conseguir dar respostas ao mundo se tornou não ter mais condições de questioná-lo e, assim, sentir que perdi a capacidade de me espantar com esse mundo, mesmo sendo assediado constantemente com novidades.

      Como pode a inamovibilidade ser um desejo se até mesmo os deuses precisaram adquirir a forma da matéria, finita e angustiante, para fornecer sentidos a si próprios? Estranho como cada parte desse jogo, Homens e Deuses, a partir da sua perspectiva (porque a perspectiva do absoluto também é uma e não A perspectiva), busca "a grama do vizinho". Do Cristianismo ao candomblé, vemos as divindades divertindo-se com a condição finita da humanidade.

      É a angustia da condição finita que, na minha opinião, é o motor do nosso movimento. E o que somos sem movimento? Autômatos paranoicos? Uma vez fiz um exercício de pensamento metafórico para ilustrar o sentimento do entusiasmo. É como se nosso espírito fosse formado por uma solução saturada, daquelas que ficam cheia daquele pozinho que lentamente se acomoda no fundo do copo se ficar parado. O Movimento "agita" este pozinho e reestabelece a vida do Espírito. Parado, tudo decanta e torna-se imóvel, inerte, sepultado em vida.

      Antes a angustia era que elementos externos estagnavam meu espírito. Agora, eu me tornei meu pior inimigo e ocasionei a decantação  do meu espírito prendendo as possibilidades de fazer este involucro gerar movimento.

      Fica como desabafo!




      sábado, 27 de julho de 2013

      Ponto de Arquimedes...

      Sinto que minhas forças produtivas entraram em contradição com minha autoconsciência e, nesse momento, internaliza-se paulatinamente a máxima da revolução ou barbárie neste novo mundo que se apresenta ainda de forma muito nebulosa.  

      Até mesmo quando penso em crises existenciais, me parece difícil sair do paradigma marxista. Gosto dos conceitos e das formulações deste campo do conhecimento, estou convencido de que muitas dessas idéias ainda dão conta da compreensão do mundo social. 
      Contudo, os perigos das afiliações e da tomada de partido - enquanto conjunto racional de opiniões sobre o mundo e que norteia a ação - me acarretaram a maior penúria que essa condição humana pôde vivenciar antes de ser "fagocitada" por esta terra, a maldita estagnação do espírito. 
      Ter um conjunto de crenças, por mais que este conjunto seja flexível, em médio ou longo prazo me colocou nessa situação de inamovibilidade, uma falsa sensação de ataraxia na qual, a partir deste conjunto de crenças cri no poder de  produzir uma confortável explicação universal dos fenômenos do mundo.

      O que não me passou pela cabeça durante o processo de consolidação inconsciente desse conjunto de crenças é que tal partido funciona quando fornece sentido aos pequenos mundos dos quais faço parte cotidianamente. Esqueci, mesmo que por um instante, de que o conjunto de experiências humanas é muito maior do que toda a nossa capacidade de processamento; distraí-me do fato de sermos também exemplares únicos e parcelares desse conjunto mais amplo que é a condição humana. 

      Admito que foi generosidade minha atribuir tal processo apenas ao esquecimento. Não estive permanentemente vigilante sobre minha mente para admitir que, em algum momento, descuidei dela. De fato, penso que desejei estagnar o mundo em um conjunto de idéias sobre as quais não existam refutações possíveis. 

      segunda-feira, 5 de setembro de 2011

      Idolos da caverna

      - Será possível fugirmos das nossas impressões subjetivas sobre o mundo e criar um conhecimento objetivo? Será que tal objetividade existe mesmo? E no que é estabelecido como conduta social padrão, é possível a nosso espirito se atar a tais convenções quando as harmonias podem ser tantas a nos deixar tontos?? Me bato agora com tais questões, ainda - evidentemente - embaralhadas na minha mente. "Apenas na explicitação o conhecimento torna-se efetivo" e "no negativo é que se encontra a essência da ontologia" dizia Hegel...então forcemos a explicitação, por mais confusa que seja para garantir a expurgação de alguma essencialidade.

      - Inventamos formas de relação com o mundo que por algum motivo acreditamos ser a real forma de interagir com o mundo e chamamos tal cristalização de relação objetiva; uma relação que possui realidade em si, independente de eu estar em contato ou não e independe também das subjetividades. Contudo, isso me parece insuficiente...mesmo uma relação objetiva com qualquer coisa precisa de uma pitada de subjetividade, que se encontra exatamente na crença de que tal relação com o mundo é objetiva; e essa crença é validada por premissas aleatórias, sendo a principal o costume, a tradição, o "os outros fazem assim". Sendo assim não existem formas objetivas de relação com o mundo...Esta crença vira areia seca no vento quando se trata de relações humanas. Se já é dificil ou randômico estabelecer padrões de objetivação na relação com as coisas, quem dirá estabelecer tais padrões nas relações humanas.

      - O que mais me irrita é ter que me submeter a tais "objetivações", a condutas padrão para me relacionar com as pessoas. Afinal quem inventou isso? Aonde se esconde aquilo que nos torna humanos. Penso que nossas sensações deveriam estar acima de qualquer objetivação ou, para assumir uma posição mais equilibrada, que qualquer objetivação relacionada a forma de conduta deveria ser permeada pela sensação que uma pessoa sente quando vê a outra; seja ela qual for.

      - Os idolos da caverna, diferente do que propôs Bacon, nesses casos de relação humana sincera - sinto que em todos os casos da vida, mas sejamos prudentes pela integridade da alma - são imprescindiveis para a própria evolução da humanidade. Essas sensações e impressões minimas e tão profundamente individuais sobre tudo o que nos rodeia - e que apenas a literatura e a poesia conseguem tornar inteligiveis nas letras -nos colocam diante da plenitude, pois, o mundo é incompleto e necessita da nossa individualidade para se refazer e desfazer, refazendo-se no momento seguinte. Por isso, ainda opto pela reverberação dos meus impetos passionais...por mais idiotas que sejam...são minha unica forma de contato com o mundo,

      como disse Heráclito "Os homens buscam o mundo em seus pequenos mundos"...

      domingo, 1 de maio de 2011

      As dores do crescimento

      - Há quase três anos escrevi este texto sobre o sentido da experiência. Nele expressei uma opinião que naquele momento era apenas uma reflexão mas que hoje se mostra quase como uma profecia. Hoje, sinto que de alguma forma estagnei meu espírito. Desconheço os grandes ímpetos ou paixões incontroláveis que me assolavam na época daquele texto. De perto, este processo mais parece a busca aristotélica pelo não-movimento.

      - Lembro que nos últimos anos da minha adolescência quis prestar vestibular para Psicologia. Não me dediquei muito, acreditava que vestibular era perda de tempo (eu ainda era um amante da vida), mas, pressionado pela familia, preferi unir o util ao agradável, buscar respostas para compreender a condição humana. Este era o grande enigma que permeava minha mente pré-racional e transbordante de hormônios e aquilo me fascinava  como se a verdade do universo estivesse na qualidade de ser humano.  Meu fascínio se dava pelo "eterno material" que cada ser humano me fornecia a partir de suas ações, modos de ser e tudo mais. Observar o comportamento humano em diversas situações diferentes era meu maior divertimento e maior estimulo a continuar vivendo entre os meus pares. Vendo os outros aprendia mais sobre mim e convivia melhor com os outros. Essa perspectiva me deixava lisergicamente feliz. A condição humana me fazia querer mais e mais da própria vida e assim me articulava nas várias formas de viver afim de ter um conhecimento total do homem em todas as suas experiências. Entender a condição humana me estimulava a viver cada vez mais. 

      - Lembro que ainda nesta época, buscava respostas para o problema da emancipação humana e da opressão  do Estado. Fui anarco-punk, socialista, participei do movimento estudantil, fiz tudo aquilo que um estudante sem noção mas com vontade de mudança faria. Imaginava que a vida poderia ser menos sofrida e as pessoas recuperariam a fé na humanidade se as condições sociais fossem diferentes das atuais. Assim, fui cooptado por várias forças pela minha falta de discernimento. Nessas empreitadas comecei a perder a ingenuidade com a humanidade. 

      - Hoje é até difícil para mim expressar minha antiga ingenuidade. Não nutro mais essa filantropia, pois, todos me parecem igualmente sem graça e as ações da humanidade nada guardam daquela humanidade ideal que eu acreditava perceber. Quanto mais eu me aprofundava nas minhas investigações mais eu percebia a elaboração de princípios falsos sobre os quais todas as nossas ações se baseiam. No fundo, cada passo que damos precisa de um mínimo de falsidade para que o movimento possa ocorrer. Isso é necessário, todos praticamos essa falsidade para manter minimamente a cordialidade social (eu não me eximo disso). O problema é quando essa falsidade se coloca na vida das pessoas como a própria vida, como um aspecto inerente a realidade. O que mais me irrita é a falta de um entendimento mais amplo e menos individualista. Perceber o outro, compreender o mundo não são exercícios dificeis, mas buscamos sempre o caminho da mediocridade de criar simulacros e submeter toda a realidade a esses simulacros. Essa tem sido a resposta final a todas as minhas análises da condição humana. Ela não existe, foi inventada. Assim, considerei a condição humana um assunto de segundo escalão e preferi focar minha energia na pura intelecção, na Filosofia. 

      - Hoje o meu questionamento é: para onde foi todos aquele amor pela humanidade e pela própria vida? Penso que a resposta esteja na razão. Não deixei de admirar o indeterminado nem a humanidade mas hoje não consigo mais encontra-la em lugar algum. É como se de alguma forma todas as partes do mundo que me rodeia se encaixassem perfeitamente e o único trabalho que tenho é compreender cada parte em sua unidade e sua interação com a totalidade. Não há surpresas, é como se eu já tivesse vivido tudo que tinha para viver. Nada de novo além da apreciação dos diferentes simulacros. Nada existe de real na relação entre duas pessoas, muito dificilmente as duas almas entrarão numa interação tão instrumentalizada onde nenhuma das duas precise apresentar uma simulação para parecer apreciável a outra. Isso é o que chamam de politica e não humanidade.

      - Mantenho ainda ímpetos revolucionários, mas agora ajo com a frieza. Sem paixões, busco - como Spock - o principio da Lógica de que o bem de muitos vale mais do que o de poucos. Mas faço porque é necessário, sem gosto, sem ideologias. Apenas por mim. Ainda guardo a vontade, mas perdi o desejo...

      domingo, 20 de fevereiro de 2011

      Antologia do desespero III: Isolamento





      Discuti com um amigo sobre a famosa misantropia natural dos filósofos. Parece ser uma máxima, quem cursa ou exercita a Filosofia não consegue manter níveis normais de sociabilidade. Não lembro bem do final da discussão, se é que houve algum, mas posso catar da nossa discussão que esse afastamento dos homens é resultado de uma provável visão ampla que o filosofo possui e que o resto do mundo não compartilha. Como Fernando Pessoa escreveu no Livro do desassossego "Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões". Essa é uma realidade que afasta os filósofos das pessoas talvez pela angustia, pela frustração de perceber a realidade em sua ultima estrutura e precisar se perder em maquetes de mundo para poder se misturar.Não acho que os filósofos sejam misantropos - nem tão pouco egoístas, passam a vida a tentar abrir os olhos do mundo, mesmo mundo que não lhes dão ouvidos - penso além, que eles optem pela solidão como meio de preservação da lucidez.

      A Filosofia é considerada loucura no mundo atual e o ser que se dedica a essa arte, considerado esquizofrênico diante do grande público. Como alguém pode manter alguma estrutura mental ao se deparar com a realidade e, ao se voltar para seus semelhantes, percebe que todos lhes dão as costas, optando por migalhas quando são oferecidos os maiores
      banquetes?

      Não me incluo na classe dos Filósofos, não possuo habilidade para oferecer grandes banquetes. Mas sinto essa irresistível vontade de me desvencilhar de cada pequeno laço construído apenas pelo habito de não estar sozinho. Isolar-me seria o ideal. Senti essa necessidade após perder o celular. Que belo reencontro comigo mesmo tem sido esses dias. O celular é um chip rastreador irritante de onde não há escapatória. Estar livre do seu julgo (o objeto não julga, mas cada pessoa que liga desenvolve o caráter do objeto para o usuário) tem sido magnífico. A comunicação acabou, não parece ser mais necessária; perdi o contato com o resto do mundo, não por causa do celular, mas por mim mesmo. Optei por um mundo livre de ilusões e as relações sociais dependem de ilusões para acontecer. Ilusões como o companheirismo, as instituições, os valores,
      todas essas pequenas doutrinas do cotidiano que prendem nossas almas nesta terra que mais parece um gigante AD&D.

      Parece que estou confortável nesse estado. Não estou. Essa configuração mental é nova. Antes, imaginava ser o sentido da vida estar rodeado de pessoas, absorver o maior número possível de experiências. Ainda possuo traços disso que não me permitem sonos profundos. Imagino estar, algumas vezes, num precipício de solidão e de verdadeira loucura onde no final acreditarei piamente que apenas a minha mente é a onisciência
      e todas as outras estão subjugadas a ela. Meio Stalinista, mas parece ser o provável resultado. Apesar de tudo, sei da importância das vivências de cada um. Sei que sou apenas mais um e me sinto engolido pela minha própria arrogância. Mas, nenhuma experiência parece ser realmente nova ou reveladora de algum mistério do Ser. Nada vai além do medíocre.

      Se apenas eu me satisfaço com vivências que vão além do medíocre, porque não me isolar? Porque esses conceitos são relativos. Medíocre, legitimo, revelador, o que significa cada coisa dessas para cada uma das sete bilhões de pessoas no mundo? Como eu, na minha posição molecular perante o universo posso me garantir poderes tão divinos quanto a sapiência absoluta do certo e errado? Eu não sei... Enquanto ninguém me fornece uma resposta ou modo de ver o mundo que me faça agir de outra forma, continuarei cultivando a solidão.