segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Idolos da caverna

- Será possível fugirmos das nossas impressões subjetivas sobre o mundo e criar um conhecimento objetivo? Será que tal objetividade existe mesmo? E no que é estabelecido como conduta social padrão, é possível a nosso espirito se atar a tais convenções quando as harmonias podem ser tantas a nos deixar tontos?? Me bato agora com tais questões, ainda - evidentemente - embaralhadas na minha mente. "Apenas na explicitação o conhecimento torna-se efetivo" e "no negativo é que se encontra a essência da ontologia" dizia Hegel...então forcemos a explicitação, por mais confusa que seja para garantir a expurgação de alguma essencialidade.

- Inventamos formas de relação com o mundo que por algum motivo acreditamos ser a real forma de interagir com o mundo e chamamos tal cristalização de relação objetiva; uma relação que possui realidade em si, independente de eu estar em contato ou não e independe também das subjetividades. Contudo, isso me parece insuficiente...mesmo uma relação objetiva com qualquer coisa precisa de uma pitada de subjetividade, que se encontra exatamente na crença de que tal relação com o mundo é objetiva; e essa crença é validada por premissas aleatórias, sendo a principal o costume, a tradição, o "os outros fazem assim". Sendo assim não existem formas objetivas de relação com o mundo...Esta crença vira areia seca no vento quando se trata de relações humanas. Se já é dificil ou randômico estabelecer padrões de objetivação na relação com as coisas, quem dirá estabelecer tais padrões nas relações humanas.

- O que mais me irrita é ter que me submeter a tais "objetivações", a condutas padrão para me relacionar com as pessoas. Afinal quem inventou isso? Aonde se esconde aquilo que nos torna humanos. Penso que nossas sensações deveriam estar acima de qualquer objetivação ou, para assumir uma posição mais equilibrada, que qualquer objetivação relacionada a forma de conduta deveria ser permeada pela sensação que uma pessoa sente quando vê a outra; seja ela qual for.

- Os idolos da caverna, diferente do que propôs Bacon, nesses casos de relação humana sincera - sinto que em todos os casos da vida, mas sejamos prudentes pela integridade da alma - são imprescindiveis para a própria evolução da humanidade. Essas sensações e impressões minimas e tão profundamente individuais sobre tudo o que nos rodeia - e que apenas a literatura e a poesia conseguem tornar inteligiveis nas letras -nos colocam diante da plenitude, pois, o mundo é incompleto e necessita da nossa individualidade para se refazer e desfazer, refazendo-se no momento seguinte. Por isso, ainda opto pela reverberação dos meus impetos passionais...por mais idiotas que sejam...são minha unica forma de contato com o mundo,

como disse Heráclito "Os homens buscam o mundo em seus pequenos mundos"...

domingo, 1 de maio de 2011

Isso está uma merda(não leia)!!

- Há quase três anos escrevi este texto sobre o sentido da experiência. Nele expressei uma opinião que naquele momento era apenas uma reflexão mas que hoje se mostra quase como uma profecia. Hoje, sinto que de alguma forma estagnei meu espírito. Desconheço os grandes ímpetos ou paixões incontroláveis que me assolavam na época daquele texto. De perto, este processo mais parece a busca aristotélica pelo não-movimento.

- Lembro que nos últimos anos da minha adolescência quis prestar vestibular para Psicologia. Não me dediquei muito, acreditava que vestibular era perda de tempo (eu ainda era um amante da vida), mas, pressionado pela familia, preferi unir o util ao agradável, buscar respostas para compreender a condição humana. Este era o grande enigma que permeava minha mente pré-racional e transbordante de hormônios e aquilo me fascinava  como se a verdade do universo estivesse na qualidade de ser humano.  Meu fascínio se dava pelo "eterno material" que cada ser humano me fornecia a partir de suas ações, modos de ser e tudo mais. Observar o comportamento humano em diversas dimensões diferentes era meu maior divertimento e maior estimulo a continuar vivendo entre os meus. Vendo os outros aprendia mais sobre mim e convivia melhor com os outros. Essa perspectiva me deixava eternamente feliz. A condição humana me fazia querer mais e mais da própria vida e assim me articulava nas várias formas de viver afim de ter um conhecimento total do homem em todas as suas experiências. Entender a condição humana me estimulava a viver cada vez mais. 

- Lembro que ainda nesta época, buscava respostas para o problema da emancipação humana e da opressão  do Estado. Fui anarco-punk, socialista, participei do movimento estudantil, fiz tudo aquilo que um estudante sem noção mas com vontade de mudança faria. Imaginava que a vida poderia ser menos sofrida e as pessoas recuperariam a fé na humanidade se as condições sociais fossem diferentes das atuais. Assim, fui cooptado por várias forças pela minha falta de discernimento. Nessas empreitadas comecei a perder a ingenuidade com a humanidade. 

- Hoje é até difícil para mim expressar minha antiga ingenuidade. Não nutro mais essa filantropia, pois, todos me parecem igualmente sem graça e as ações da humanidade nada guardam daquela humanidade ideal que eu acreditava perceber. Quanto mais eu me aprofundava nas minhas investigações mais eu percebia a elaboração de princípios falsos sobre os quais todas as nossas ações se baseiam. No fundo, cada passo que damos precisa de um mínimo de falsidade para que o movimento possa ocorrer. Isso é necessário, todos praticamos essa falsidade para manter minimamente a cordialidade social (eu não me eximo disso). O problema é quando essa falsidade se coloca na vida das pessoas como a própria vida, como um aspecto inerente a realidade. O que mais me irrita é a falta de um entendimento mais amplo e menos individualista. Perceber o outro, compreender o mundo não são exercícios dificeis, mas buscamos sempre o caminho da mediocridade de criar simulacros e submeter toda a realidade a esses simulacros. Essa tem sido a resposta final a todas as minhas análises da condição humana. Ela não existe, foi inventada. Assim, considerei a condição humana um assunto de segundo escalão e preferi focar minha energia na pura intelecção, na Filosofia. 

- Hoje o meu questionamento é: para onde foi todos aquele amor pela humanidade e pela própria vida? Penso que a resposta esteja na razão. Não deixei de admirar o indeterminado nem a humanidade mas hoje não consigo mais encontra-la em lugar algum. É como se de alguma forma todas as partes do mundo que me rodeia se encaixassem perfeitamente e o único trabalho que tenho é compreender cada parte em sua unidade e sua interação com a totalidade. Não há surpresas, é como se eu já tivesse vivido tudo que tinha para viver. Nada de novo além da apreciação dos diferentes simulacros. Nada existe de real na relação entre duas pessoas, muito dificilmente as duas almas entrarão numa interação tão instrumentalizada onde nenhuma das duas precise apresentar uma simulação para parecer apreciável a outra. Isso é o que chamam de politica e não humanidade.

- Mantenho ainda ímpetos revolucionários, mas agora ajo com a frieza. Sem paixões, busco - como Spock - o principio da Lógica de que o bem de muitos vale mais do que o de poucos. Mas faço porque é necessário, sem gosto, sem ideologias. Apenas por mim. Ainda guardo a vontade, mas perdi o desejo...

terça-feira, 22 de março de 2011

Antologia do desespero IV: Raiva

Nappa:Por favor, diga logo, qual o poder de luta de Kakaroto?
Vegeta: GRRRRR!!! É DE MAIS DE 8000!!!!!!!!!

Meme clássico da internet, até hoje eu rio com essa besteira (segue o link para quem gosta de nonsenses).  
Mas não vim falar disso.Vim falar da raiva. Vegeta só ilustra isso. É o Sayajin com o maior problema de hipertensão do universo. Então é melhor falar da minha raiva pensando na raiva dele. Me deixa mais tranquilo para falar de mim.

Vegeta é um personagem interessante. Tentarei aqui falar sobre a raiva dele e talvez desvele a minha. Há duas implicações da sua raiva. A primeira é sua frustração intensa e a segunda é a sua intolerância. Vamos falar de cada uma. Penso eu que a raiva é um sentimento tão natural que é mais fácil de compreender do que o amor, por exemplo. A raiva é uma vontade intensa de que o mundo seja como você espera que seja, o que é de um egoísmo monumental. Ele se reduz a esses dois paradigmas, no máximo.

Pense no Vegeta. A frustração essencial dele é  o fato de não ser o guerreiro mais forte do universo, como sua posição real o fez supor. Era subordinado de Freeza durante os anos após a destruição do seu planeta e depois de encontrar Goku (com seu poder de luta de mais de 8000) sofreu uma série de outras decepções. A frustração é o primeiro passo para a raiva; sentir que não é possível transcender as configurações cotidianas, mesmo sabendo que você possui tal capacidade, é uma sensação horrível. É como ver as nuvens em uma prisão ao ar livre. Existe algo que te restringe, te reprime aquele minusculo espaço reservado que você terrivelmente sabe que é pequeno demais para você...ou para qualquer ser humano com o minimo de capacidade.

 A partir da sua posição real como principe dos sayajins ou da sua falta de percepção, uma outra caracteristica surge que é a intolerancia. "Verme insolente" era a frase favorita de Vegeta quando ia enfrentar qualquer um. Não há ninguém melhor que ele. Todos são insignificantes.Qual espaço para a comunicação...se todos são vermes devem ser exterminados pelo bem da raça superior....a raiva traz essa sectarização.

Fico preocupado por perceber essas duas ideias em mim. Mas agora já não me sinto assim...Guardo minhas raivas no seu lugarzinho de direito para não aumentar o flagelo da existência...



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Antologia do desespero III: Isolamento





Discuti com um amigo sobre a famosa misantropia natural dos filósofos. Parece ser uma máxima, quem cursa ou exercita a Filosofia não consegue manter níveis normais de sociabilidade. Não lembro bem do final da discussão, se é que houve algum, mas posso catar da nossa discussão que esse afastamento dos homens é resultado de uma provável visão ampla que o filosofo possui e que o resto do mundo não compartilha. Como Fernando Pessoa escreveu no Livro do desassossego "Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões". Essa é uma realidade que afasta os filósofos das pessoas talvez pela angustia, pela frustração de perceber a realidade em sua ultima estrutura e precisar se perder em maquetes de mundo para poder se misturar.Não acho que os filósofos sejam misantropos - nem tão pouco egoístas, passam a vida a tentar abrir os olhos do mundo, mesmo mundo que não lhes dão ouvidos - penso além, que eles optem pela solidão como meio de preservação da lucidez.

A Filosofia é considerada loucura no mundo atual e o ser que se dedica a essa arte, considerado esquizofrênico diante do grande público. Como alguém pode manter alguma estrutura mental ao se deparar com a realidade e, ao se voltar para seus semelhantes, percebe que todos lhes dão as costas, optando por migalhas quando são oferecidos os maiores
banquetes?

Não me incluo na classe dos Filósofos, não possuo habilidade para oferecer grandes banquetes. Mas sinto essa irresistível vontade de me desvencilhar de cada pequeno laço construído apenas pelo habito de não estar sozinho. Isolar-me seria o ideal. Senti essa necessidade após perder o celular. Que belo reencontro comigo mesmo tem sido esses dias. O celular é um chip rastreador irritante de onde não há escapatória. Estar livre do seu julgo (o objeto não julga, mas cada pessoa que liga desenvolve o caráter do objeto para o usuário) tem sido magnífico. A comunicação acabou, não parece ser mais necessária; perdi o contato com o resto do mundo, não por causa do celular, mas por mim mesmo. Optei por um mundo livre de ilusões e as relações sociais dependem de ilusões para acontecer. Ilusões como o companheirismo, as instituições, os valores,
todas essas pequenas doutrinas do cotidiano que prendem nossas almas nesta terra que mais parece um gigante AD&D.

Parece que estou confortável nesse estado. Não estou. Essa configuração mental é nova. Antes, imaginava ser o sentido da vida estar rodeado de pessoas, absorver o maior número possível de experiências. Ainda possuo traços disso que não me permitem sonos profundos. Imagino estar, algumas vezes, num precipício de solidão e de verdadeira loucura onde no final acreditarei piamente que apenas a minha mente é a onisciência
e todas as outras estão subjugadas a ela. Meio Stalinista, mas parece ser o provável resultado. Apesar de tudo, sei da importância das vivências de cada um. Sei que sou apenas mais um e me sinto engolido pela minha própria arrogância. Mas, nenhuma experiência parece ser realmente nova ou reveladora de algum mistério do Ser. Nada vai além do medíocre.

Se apenas eu me satisfaço com vivências que vão além do medíocre, porque não me isolar? Porque esses conceitos são relativos. Medíocre, legitimo, revelador, o que significa cada coisa dessas para cada uma das sete bilhões de pessoas no mundo? Como eu, na minha posição molecular perante o universo posso me garantir poderes tão divinos quanto a sapiência absoluta do certo e errado? Eu não sei... Enquanto ninguém me fornece uma resposta ou modo de ver o mundo que me faça agir de outra forma, continuarei cultivando a solidão. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O cabelo e os insanos desvarios do pensamento


Cortar ou não cortar, eis a questão (Hamlet forçado, vergonha em 3,2,1... -.-)

Antes de entrar nesse mérito, vou  deixar minha mente divagar sobre o único aspecto da minha aparência, de certa forma, apreciado por outras pessoas e da nossa relação simbiótica. Crio o cabelo há cinco anos, lembro até da ultima vez que cortei, foi num feriado de 15 de novembro. Tinha costume de cortar cabelo nos feriadões para voltar de um longo periodo afastado dos afazeres com alguma mudança no visual.

Então deixei o cabelo crescer. E esse periodo coincidiu - por destino ou acaso - com o meu amadurecimento intelectual, pessoal, profissional. Sinto que antes de ter esse cabelo, eu não existia. Era um  "pobre de ser" , com pouca substância para oferecer ao mundo. A partir do momento que comecei a criar cabelo, comecei a quebrar essa mediocridade e hoje, apesar dos desespero e da insanidade, me sinto mais dono de mim, mais autonomo. 

Obvio que isso não é resultado do cabelo, é so tecido morto e seborréia (nem sei o que é isso). Mas uma coisa veio com a outra. Hoje em dia comparo a minha branda esquizofrenia com a forma do meu cabelo. Na verdade a falta de forma dele. Ele vai pra onde quer, ao sabor do vento. É como se o cabelo fosse a representação da minha insanidade que eu, enquanto personalidade formada, tento prender em elásticos de moral e estética para que os outros não sejam mordidos pelas loucuras que emanam dele. Mas, quando está solto, coisa rara como na foto acima, ele assume a sua condição de não-ser , de indiferenciação que é da sua natureza...coisa que uma mente conceitual nunca compreenderia ou se esforçaria para tentar entender.

Esse cabelo é pura poesia. A poesia que eu amarro e tranco no fundo de mim por algum motivo que ainda desconheço. Na insanidade do irracional me reconheço mais do que na tentativa prática de parecer ordinário. Mas ainda prendo o cabelo...e penso se devo mesmo me livrar do ultimo resquicio de resistência, que me lembra do sentido insensato da vida em cada visita ao espelho. O que será de mim sem esse cabelo?